Diário: à Segunda-feira

A introdução às histórias dos bruxos, às tradições, às mezinhas e à memória do touro com duas cabeças.

Senhora Maria do Céu

De Fervença, filha de uma geração migrante. Cresceu entre sete irmãos, quase todos espalhados entre Lisboa, Canadá e Brasil. Criou cinco filhos e tem cinco netos:

“todos bem arrumadinhos”

Tem um arroz de feijão que é só ao domingo. Frango, só em dias de festa.
Só vem à vila quando precisa de algo. Diz que é longe:

“três euros daqui.”

Hoje, esperava o irmão.

D. Perpétua

Fala dos Padres de Arnóia com reverência. Não bebe álcool, mas no inverno faz uma exceção: água ardente com açúcar, que põe a arder.
Na mesa de cabeceira, um dente de alho descascado dentro de água — bebe tudo de manhã:

“É para purificar.”

A Costureira

Apareceu brevemente. Não ficou o nome, mas ficou o gesto.

O Presidente da Câmara

Fala com orgulho da vila, das camélias nos espaços públicos:

“As camélias orientam o caminho e o percurso.”

Lembra o tempo das irmãs Pinto Basto e da abundância pastorícia: há 40 anos, 61% da população dedicava-se ao pastoreio. Hoje, são apenas 4 ou 5%.
São cerca de 18.000 habitantes — cada um com uma história que resiste.

A Senhora do Nada

Apareceu do nada. Aproximou-se do presidente e disse:

“Cada pessoa tem um número. Eu sou o 48. A minha irmã é o 30.”

Depois desapareceu. Não ficou mais nada além disso.

Auxiliar da Câmara

Partilhou o Responsório de Santo António, com devoção.

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D. Laurinda

Pouco se ouviu, mas a presença foi serena. Fica o nome como ponto de escuta.

Senhor Agostinho da Silva Lopes

Veio à vila fazer o IRS. Trouxe os cantares. Gravou, cantou, riu.

“Mulher que é mulher tem as mamas duras… e depois, ao de penduro.”

🎙️ o sol prometeu à lua

Lembrou-se do irmão do pai — tinha uma vaca que pariu um touro com duas cabeças:

“Tinha uma orelha de cada lado e uma no meio, que juntava as duas.”

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