Diário: à Terça-feira
Pelos vários lugares da região e ainda demos um saltinho a Bochum, não fosse esta uma terra de emigrantes.
Senhor António Rosindo Sousa Ribeiro
Fala alemão — viveu anos em Bochum, na Alemanha, a trabalhar numa fábrica de chapas.
“Se soubesse que você falava alemão, já tinha vindo mais cedo.”
A mulher, Maria de Jesus, foi chamada por carta antes do 25 de Abril. Está sozinho há 5 anos. Os filhos, diz, não o visitam.
Esteve na Guerra do Ultramar — 14 meses de recruta, quase 4 anos ao todo.
Visita a cidade de táxi. O motorista espera sempre com paciência, para que ele possa “estar com as pessoas”.
Tem sempre ovos frescos. A vizinha partilha com ele, e ele partilha com quem precisa. “Não preciso de tantos”.
O Senhor e a Senhora
Conversaram sobre Ribeira de Pena. Conhecem alguém que trabalha na mesma praça que a minha tia. O mundo, às vezes, é mesmo pequeno.
O Senhor Jesus
Vem de Infesta. Está a tirar formação de pesados.
Tem pulseira eletrónica.
Foi condenado por um crime de violência doméstica. Diz que não cumpriu o que lhe foi atribuído.
Vê o território como jogo de posicionamento:
“O Zé Maria fica atrás do campo.”
Sra. Joaquina
Contou histórias com um brilho nos olhos.
Sabia onde andavam os bruxos: o Dr. Sérgio, da nota de 10 e de 50; a florista; o taxista; um que vinha do castelo.
Falou de um homicídio (ou suicídio) de bruxos — “há uns dez anos”.
“Eu sei onde eles andam, mas não acredito neles… para mim.”
Histórias super gráficas, entre o real e o imaginado, ditas como quem planta feitiços na escuta.
Rosa
Da comunicação da câmara, mas o tom era de quem já viveu outras comunicações — mais antigas, mais intuitivas.
Falou dos bruxos e das mezinhas, das ervas aromáticas e das receitas que são “mimos de Arnóia”.
“As pessoas não querem o que os outros têm. Só não querem é que tu tenhas.”
Lembrou o Zé do Telhado, o Robin dos Bosques português, que partilhou cela com Camilo Castelo Branco.